fatos surpreendentes e desnecessários


Matando formigas (ou “mulheres, mulheres”)

Posted in eu escrevo,eu vivo por camilak em janeiro 12, 2009

formiga

Talvez elas sempre tenham estado aí. Talvez elas morem neste apartamento há mais tempo do que você. Quem sabe elas não têm a própria epopéia de conquista de território, quando um clã bombardeou o outro para anexar territórios. Pode até ser que no War das formigas o chãozinho mínimo que apóia a esquadria da janela seja Dudinka. O terceiro azulejo de baixo para cima, na quarta fileira a partir da porta da área de serviço, à direita, vista de frente de quem chega, seja Omsk. E aquele pedaço de pizza que você deixou na caixa em cima da mesa seja a Terra Prometida. A embalagem de Danoninho vazia que ficou na pia por pura preguiça com certeza é Marte.

Na história das formigas, sua casa é Macondo. Gerações se sucederam no período de seis meses, toda uma história de civilização, com avanços tecnológicos e paraditas filosóficas realmente importantes. Deve haver pelo menos uma coleção Pensadores e as obras completas de Freud. E uma Britney causando. E uma Amy que mora na sua caixa de remédios. E uma Lady Di morta por um sapato descuidado. E mitologias próprias e guerras na televisão. Talvez até alguma formiga idiota vestida de dinossauro roxo para entreter as larvas.

Mas não importa quanto tempo elas tenham existido antes de você olhar para elas. Importa o reconhecimento. Um dia você simplesmente percebe que elas estão lá. E isso passa a incomodar.

Mulheres são assim. Um dia a formiga do quilo extra incomoda. Aquela pinta um pouco mais saltada. O cabelo. O emprego. E até, pasmem, o Amor (no caso, a falta dele). Mas mulheres, práticas que somos, descobrimos logo uma saída para resolver o problema. Tudo começa com uma visita ao Google. Pronto, sabemos tudo sobre como trucidar formigas, eliminar maus odores, domar cabelos que não avoam, mudar de emprego, encontrar o cara perfeito.

Munidas da informação, vamos às compras. Compramos o sutiã certo, o perfume certo, o creme certo, o remédio certo, o veneno certo, o currículo certo, o livro de auto-ajuda certo. E lemos a embalagem.

Aí é simples. Solução em uma das mãos, certeza em punhos, passamos à temida fase dois. E começamos o tormento. Colocado o veneno, vamos de minuto em minuto ao pote para saber se as formigas já carregaram tudo para seus ninhos macondianos e estão lá, à beira da morte, amaldiçoando os budistas (que as fizeram relaxar) e a Bayer. Passamos o creme e vamos de 2 em 2 minutos ao espelho para ver se os cabelos estão realmente domados. Por mais que esteja escrito na embalagem que é um tratamento que começa a surtir efeito em uma semana. Encontramos a pessoa certa, certa certa ou certa porque foi ela quem reparou no sutiã novo e na sua postura mais autoconfiante, e passamos a esperar as ligações. E conferimos e reconferimos. E ficamos ansiosas. E comemos demais ou não comemos. E pensamos só nisso. E comemoramos cada grão de veneno carregado, cada SMS, cada resposta de “estamos analisando” seu perfil, cada grama perdido, cada fio no lugar.

Mas não basta. Porque uma hora, não importa quão metódicas as formigas sejam, elas têm de fazer outras coisas em suas vidas de formigas (como chamar a Cruz Vermelha para os primeiros casos de uma rara doença que veio de Marte ou viajar no final do ano) e elas simplesmente param de pegar o veneno. E os SMSs falham. E as respostas do currículo não viram entrevistas tão cedo. E o peso estabiliza (ou aumenta 100g). E o creme pára de fazer efeito porque o cabelo viciou na coisa.

E aí suas expectativas aumentam e você se torna obsessiva. E olha emails e espelho e grânulos de veneno até contá-los. E você começa a achar que fez algo errado, que fez besteira de novo. E se culpa.

Então, depois de muito sofrimento (seu e das formigas), elas somem. O problema some. Você troca de emprego, fica mais magra, encontra a pessoa certa ou meio certa, ajeita o cabelo, mata as formigas.

Até o novo incômodo. Até o novo encontro. Até o novo problema recentemente descoberto (ou inventado). Até as novas formigas.

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2 Respostas to 'Matando formigas (ou “mulheres, mulheres”)'

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  1. eloise said,

    bá, adorei esse!
    meu problema aqui são as baratas e o fato de eu me debater contra as soluções usuais… inseticida, eu??? imagina a fileira de questões existenciais/ambientais passando pela minha cabeça em frente à prateleira dos venenos multicoloridos… acho que preferia acreditar nas soluções simples. e comprar o xampu certo, mesmo que não funcione.

  2. Cosme said,

    só você mesmo… mto bom! confesso que me vi na cozinha olhando “o terceiro azulejo de baixo para cima, na quarta fileira a partir da porta da área de serviço, à direita, vista de frente de quem chega”… Que cara looooco! (lembra?… rs…)


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