fatos surpreendentes e desnecessários


voltando (ou recortes, história de um amor platônico-poético)

Posted in Uncategorized por camilak em janeiro 6, 2009

hands

São as mãos dele que a fazem prender a respiração. Mãos não particularmente bonitas, mas que se movem de um jeito líquido. Mãos que no ar mimetizam vertigem de surdos, dedilham sonhos de tubarão, bordam o delírio de avencas em abandono. Mãos que falam como quem tece tapetes orientais de mil nós ou inventa uma dança secreta diante do espelho. Mãos que você pode olhar por uma vida sem cansar, como filhotes de bichos.

As mãos dele paradas são pássaros ofegantes. Por um minuto pousam, exaustas, a respiração curta do dorso. Os dedos se alongam e se fecham em punho. Uma, duas, três vezes. Por fim soltam-se como mortas em cima da mesa. Ela estremece de beleza para, um segundo depois, vê-las voar novamente. E as mãos dele sintetizam, com sua dança sem sentido próprio, a História Mundial dos aviões de papel, das pipas, das sacolinhas de plástico suicidas.

Luísa só fez um pedido de Ano Novo. Para um dia, por alguns minutos, sentir cada nó, cada osso, cada unha, cada nervura, cada poro da mão de Maurício com a palma da sua língua.

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