fatos surpreendentes e desnecessários


Aline, Barba Azul e Atlas (ou como misturar pessoas reais, mitológicas e inventadas no mesmo cômodo)

Posted in eu escrevo por camilak em novembro 18, 2008

Eu tava pensando, Rose, que todo mundo tem um andar de cima. Não, não é bem um andar de cima… é outra coisa. Deixe-me tentar explicar melhor: talvez seja mais uma mistura de sótão com mezzanino. Depende da pessoa, é um ou outro. Ou mais ainda. É um cômodo sempre trancado no castelo do Barba Azul. O Grande Cômodo Misterioso.

Você vê a pessoa e acha que ela é só aquilo, o térreo. Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Tem gente que ainda tem uns adicionais, como um jardim ou um quintal. Ou uma jacuzzi. Definitivamente, tem gente que vem com jacuzzi de fábrica. Mas, se tivéssemos olhos pra ver essas pessoas de verdade, olhos com visão noturna ou arquitetamente treinados, perceberíamos que aquela viga foi feita pra suportar mais peso, que ali tem um porão ou uma câmara secreta. Nem que seja um quartinho de despejo, tem mais coisa.

É um espaço largo onde se guardam medos e inseguranças , bondades gratuitas e força de Atlas (o deus, não o livro), amores que não deram certo e fantasmas. Coleções de fantasmas, diga-se de passagem, uma verdadeira fantasmoteca.

Mas aí você vai andando pela rua e encontra, digamos, a Aline, uma moça simpatissíssima que trabalha como assistente da pediatra do seu filho, tem vinte e poucos anos e faz quinze dias comprou um lenço palestino porque achou chique.

A Aline, olhando de fora, não passa de uma quitinete. Você a conhece superficialmente e imagina que ela não tem mais valor venal do que um conjugado na ZL. No entanto, a Aline já sonhou em ser um gato, siamês, pra ser exata, já quase morreu de raiva da Regina Duarte, namorou o Alfredo, mas nem quis mais nada com ele, porque ele falava os esses esquisitos demais e comia sem modos. A Aline quer mudar o mundo nos dias pares, morre de preguiça nos ímpares e está lendo o Caçador de Pipas já faz um tempo, bem devagarinho. Ela acorda cedo todo dia, pega o ônibus com um colega e os dois não falam nada (porque ela acha sem educação ficar falando da vida alheia no ônibus).

A Aline ouve todas as queixas de sua mãe em silêncio, mastiga de boca fechada e quer se livrar de uma pinta-verruga perto do nariz que a incomoda muito. Ela já despertou paixões e foi querida, já teve medos e acordou com a boca travada de pesadelo. Tem carteira de doadora de órgãos e nunca anda com o guarda-chuva embaixo de marquises pra não incomodar ninguém.

No quarto escondido de Aline moram sonhos em ré menor, boa vontade, uma árvore genealógica de mais de mil anos de mulheres que sabem parir bem e alguns ppts de anjinhos, porque são lindos. Aline ajuda a vó que está ficando caduca a cozinhar e limpar a casa. E, pacientemente, ouve repetidamente as mesmas histórias dia após dia. Ela não se importa, faz bem pra velhinha. Ela não confessa, mas até gosta.

É isso, Rose, não estou inventando moda. No fundo, eu sei, você vai me entender. A gente é que precisa construir um puxadinho no nosso olhar. E o que a Aline tem a ver com isso?

Nada, a Aline tá sossegada. Você não precisa se preocupar com ela. O conjugado da Aline é triplex e tem vista pro mar.

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2 Respostas to 'Aline, Barba Azul e Atlas (ou como misturar pessoas reais, mitológicas e inventadas no mesmo cômodo)'

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  1. Deise Regina said,

    Quando aumentar a fita
    As línguas vão falar
    Que a dona tem visita
    E nunca vai casar
    Se enroscam persianas
    Louças se partirão
    O amor está tocando
    O suburbano coração
    Será que o amor não tem programa
    Ou ama com paixão
    Mulher virando no sofá
    Sofá virando cama coração
    O amor já vai embora
    Ou perde a condução
    Será que não repara
    A desarrumação
    Que tanta cerimônia
    Se a dona já não tem
    Vergonha do seu coração

  2. Zander said,

    Quitinete é a casa dos meus sonhos. Meu passado é uma mansão.

    http://casadozander.com/textos/a-casa-de-sal/


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