fatos surpreendentes e desnecessários


Longuíssima e inacabada carta a Júlia

Posted in eu escrevo por camilak em novembro 13, 2008

mao

Júlia, ando delirando. Tudo começou semana passada, quando tive uma febre que veio do nada, ficou comigo dois dias e foi embora. Uma dessas febres que vêm fazer vestibular em São Paulo e precisam de um lugar pra dormir. Febre afilhada da mãe, que fica contente com pão pullman, queijo e presunto e Nescau frio. Enfim, quase não dá trabalho e dorme no sofá-cama. Febre que é quase de casa, não fosse uma desconhecida qualquer.

Ai, lá vou eu… Você precisa me conter e dizer: devaneios não, devemos voltar aos delírios, que não temos tempo a perder — apesar de eu nunca entender direito como se perde tempo, se ele escorre pelo furinho do bolso ou a gente esquece no restaurante porque parou de chover e não faz mais sentido andar com ele por aí, esse estorvo.

Enfim, depois da febre foi como se tivesse pifado um circuito mínimo em mim, aquele centímetro bem no cantinho da televisão que fica num verde embaçado o tempo todo e realmente incomoda em filmes escuros e nos créditos finais. Aquele aviso de que a televisão não é mais a mesma; aquela potência novinha em tubos catódicos e outras maravilhas está falhando antes de o crediário acabar. Essa mudança mínima, perceptível apenas para mim e para pessoas com alergia a campos magnéticos, é a causadora dos delírios, minha Júlia. Algo naquele centímetro no canto da tela está errado. Sinto que precisarei de médicos vários e de diagnósticos ilegíveis.

Você poderia argumentar que não devo me preocupar com isso, porque a área é mínima. E, falando nisso, que não faz o menor sentido contar cantos de tela em centímetros quando, é senso comum, telas são medidas em polegadas.

Aí, no nosso princípio de discussão inflamada, eu argumentaria que uso o sistema métrico, que faz mais sentido pra mim e pra todo mundo com juízo, coisa que você não tem. Que nunca fui monarquista nem inglês e que, apesar disso, sempre quis colocar um torrão no chá, mesmo odiando chá com açúcar. Aí nos perderíamos da discussão inflamada e passaríamos aos devaneios e, depois de horas e vodcas com groselha e chá sem açúcar, por fim voltaríamos ao que temos neste exato minuto: uma carta pós-febril e delirante. Vamos pular essa parte toda da discussão e não esquecer o tempo no porta-tempos do restaurante, meu amor.

Veja, a área que constitui o cantinho esquerdo (de quem olha de frente) da minha vida está com problemas. É 1cm2 de pura vertigem. Lá cabem algumas palavras curtas, insetos em geral (menos centopéias), pedacinhos de biscoito água e sal (os primeiros, que já vêm quebrados e dão raiva), jujubas, lâminas finíssimas de tofu e, ontem, um dedo cortado em close (acho que era o dedo de alguma vítima, porque nem sangrava nem nada e estava meio azul).

É claro que eu posso conviver com isso. Não é uma voz que toma todo o espaço da minha cabeça nem nada, não é um fantasma, um bicho-papão desenhado com faber castell de 24 cores. Não é um medo de 1,90m com bons dentes. É 1cm2. Mas vamos combinar que é no mínimo incômodo você estar conversando com alguém e três tatus-bolas passarem rodando pelo cantinho da conversa. Ou uma borboleta-bebê voejar. Distrai, sabe? Imagine palitos de fósforo usados tentando montar aquele joguinho de mexer só dois e virar um nove, um sete ou um quatro. Ou um pedaço de mão que obviamente está jogando joquempô – e, para seu desespero, você se dá conta que não saberá nunca o resultado da partida.

Pronto, Júlia, achei que ia ter folga, mas lá vem de novo. Tem alguém me espiando do cantinho esquerdo. É apenas uma íris no olho mágico de 1cm da minha vida. Quem será o infeliz que não tem nada pra fazer que se dá ao trabalho de bisbilhotar a vida dos outros pelo cantinho da tela? Façameofavor!

Esqueça, Júlia, não dá mais pra continuar escrevendo esta carta. Desculpa, meu anjo, mas esse olho tá me incomodando demais. Nos falamos depois…

Agora vou ali enfiar o dedo no olho. No meu e no dele.

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