fatos surpreendentes e desnecessários


hinos, guerras, anêmonas e outros desastres naturais

Posted in eu escrevo por camilak em novembro 12, 2008

anemona

Às vezes eu simplesmente desaprendo a falar. Gaguejo e troco letras, tudo dentro da minha cabeça. Lá fora, fora da boca imóvel, o silêncio constrangedor dos minutos de silêncio em estádio de futebol. Aqueles minutos terríveis antes ou depois do hino porque morreu alguém, o pai de um jogador ou o ministro dos esportes.

Aí, durante esses silêncios, as mãos crescem, viram mãos de espuma de torcida (como as mãos durante o hino). Mas não é hora de bater palmas ou dar tchauzinho ou colocar a mão no coração. Elas têm de achar um lugar pra ficar ao longo do corpo e não acham. Não há bolsos, nunca há bolsos nessas horas. Mãos gigantes ocupam espaço demais, vocês sabem. Todo mundo já cantou o hino. Todo mundo já não teve bolsos.

Aí eu me pergunto por dentro, sempre por dentro, lábios em silêncio, porque simplesmente não faço alguma coisa melhor com o tempo do silêncio que perdeu palavras, como imaginar que estou numa guerra de anêmonas, a Segunda Guerra Mundial das Anêmonas. Sou a fotógrafa de guerra, aquela da foto da capa da Times, autora da foto-síntese do conflito.

Infantarias de anêmonas marchando sem andar, só com a intenção de marchar, balançando seus bracinhos-galhos de anêmonas em câmera lenta no fundo do fundo. E eu lá, clic, clic, clic. Muito ódio no coração dos exércitos, a vontade de matar o inimigo, a palavra vingança colada na testa. Clic, clic. Crianças doentes e perdidas, mulheres sem esperança. Destruição. Clic, clic. E nenhum movimento. Até os meus flashs de fotógrafa de guerra são mudos e cegos diante de tamanha imobilidade bélica.

Uma guerra telepática de anêmonas, com soldados feridos, mortos e até algumas anêmonas desconhecidas que ganharão memoriais em forma de pinto. Sim, todos os memoriais têm forma de pinto, não há o que possa ser feito a respeito, não que os designers de memoriais saibam até ontem. Mas eu os fotografarei mesmo assim. Se sobreviver a tamanha barbárie, fotografarei até memoriais-pinto.

Mas entre fotografar uma guerra de anêmonas e falar, entretanto (e sempre existe um entretanto), fico em silêncio, tentando achar lugar para meus oito braços com mãos de espuma gigantes cantando o hino e tendo meus pensamentos sobre a vingança das anêmonas que perderam seus pais e sua família e tudo tudo o que tinham numa guerra muda e estúpida.

E um dia, quem sabe, entre tantos dias assim – e essa esperança me faz mesmo sorrir e esquecer o que tinha pra dizer durante o hino interminável de não-palavras – estará escrito em algum jornal, lá no país devastado das anêmonas, em letras garrafais: “Ganhou o Pulitzer com a melhor foto do silêncio”.

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