fatos surpreendentes e desnecessários


Hotel Fox

Posted in eu escrevo por camilak em novembro 11, 2008

pilula

Ninguém diz eu te amo no Hotel Fox. O Hotel Fox serve a suicidas e amantes; serve a penas. Ninguém conta os dias de férias no Hotel Fox. Lá o tempo só existe em horas. A vida e o amor duram o tempo do pernoite. Os dias são de fugas; as noites, dos náufragos.

A luz faz mal ao Hotel Fox. Infiltrações suam pelas paredes, manchas babam pelos lençóis. O encanamento geme com engasgo de moribundos. Rouquidão corre abafada pelas paredes. Persianas e espelhos mostram seus amassados nos dias do Hotel Fox. À noite, a ferrugem range no quadril das prostitutas. O barulhinho dos comprimidos no vidro embala a noite sem despertador possível. O Hotel Fox é rápido e raso. É largo e oco.

– Não é estranho que alguém possa ter babado sua última esperança neste lençol, antes de acabar tudo?

– Não é melhor pensar que alguém já trepou neste lençol?

– Disso eu sei. Acho melhor pensar que alguém morreu aqui, neste pano velho que já foi lavado mais de mil vezes. Alguém pagou 30 reais pra morrer aqui. E pensou se comprava um pacote maior de horas ou não. Depois, muito consciente, resolveu que quatro horas era um tempo bom o suficiente e passou o Visa. E talvez tenha dado seu último sorriso irônico, pois sabia que ninguém ia pagar a conta. E agora eu estou deitada aqui, nua, sobre a baba de um morto, um resto de porra da punheta de um velho e as gotas da menstruação de uma desconhecida.

– E se você pensar que alguém foi concebido aqui? Que toda uma vida começou no lençol em que acabamos de trepar. Que essa vida vai aprender a comer, a andar, a falar, a trepar e daqui a 20 anos virá aqui trepar com uma puta da Augusta chamada Suélen. Parece melhor.

Qual o nome?

– De quem?

– Da pessoa que foi concebida. Se você contar o seu, eu conto o meu…

– Vinícius.

– Marilene. Então Vinícius nasceu e Marilene morreu. Tudo no mesmo lençol. E a gente?

– A gente, nada. A gente veio aqui trepar e foi bom. Não foi?

– Foi sim.

– Então vamos. Vou mijar e saímos, ok? O tempo já deve estar terminando.

– Tá. Acho que na verdade eu vou embora antes. Tudo bem pra você?

– Tudo, eu te ligo amanhã, guardei seu número no celular.

– Dá um último beijo. Foi bom.

– Foi ótimo.

Ninguém diz eu te amo no Hotel Fox. No Hotel Fox, todas as portas se fecham em nunca mais.

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Uma resposta to 'Hotel Fox'

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  1. graziela said,

    gata, seu hotel fox me lembrou de um hotel denver…
    agora olha esse hotel fox: http://www.hotelfox.dk/rooms.html
    coool, hein?
    essa semana vou me apresentar no tapas antes que eu vire uma (bbda) desconhecida por lá, ok? beijinhos


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