fatos surpreendentes e desnecessários


Desconcordância (um texto para poucos e castiços)

Posted in eu escrevo por camilak em novembro 4, 2008

Ontem eu li a palma da sua mão e, desde então, não pisquei mais. Nas linhas, o absurdo!, apenas verbos se encadeavam em correntinhas de crochê baixo-relevo. Me senti decorando a cartilha da escola, tão óbvia, tão pouco poética. Você me pareceu uma coleção de conjugações inúteis, análise sintática sem senso de ser. Em cada laçada, em cada amontoado de poros no espaço entre linhas, não um texto, mas um verbo solitário. Verbos sem eira nem beira, verbos baldios contavam a sua história.

Na linha da vida, na linha do amor, em todos os laçarotes que se formam no desenho da mão, só vi infinitivos. Percebi, para piorar ainda mais a situação surreal e esotérica, que os verbos se dividiam em porcentagens estranhas: 40% de intransitivos, 27% de transitivos diretos, 20% de transitivos indiretos e míseros 13% de transitivos diretos e indiretos.

Aí me flagrei em revolta. Uma raiva daquelas de não conseguir nem falar direito, da lingüística tremer, se apoderou de mim. Como você pode conviver com isso assim, voz passivamente? E eu? Como posso conjugar o amor a dois? Sério, perceba. Não se pode simplesmente acordar todo dia e levar uma vida calma e simples, com totó, jabuticabeiras, aninhas e joõezinhos, contas e DVDs, se 100% da sua palma é verbal, textos desconexos em ar-er-ir. Nem um substantivo, um adjetivo mais leve, nada. Estar, sem salvação, condenado a uma vida sem paragem, comandada por estados e agires, sem pausa, sem sossego adverbial de modo.

Percebi uns verbos eufemísticos e alguns neologismos toscos também, pra piorar o pesadelo do verbo que o Mario de Andrade conjugou. Na sua palma, falecer ocupa o lugar do morrer, como manda a educação de não falar que as vidas apodrecem. Não esperava tanto lugar-comum de sua mão! E, pior, flagrei dois ou três gerúndios, que poderiam muito bem ser eliminados pelo bem da gramática e da estética palmar. É, aquela passagem de “vai estar estudando” é bem grosseira em termos de estilo, vamos combinar.

No fim da leitura, desacreditada, percebi que é engraçado como as coisas se dão. Eu, que via em você o tempo inventado do mais-que-perfeito futuro, me peguei conjugando passados. Dei a cara a tapa achando que estava lendo bula de panacéia. E saí, bochechas em chamas, com um imperfeito grudado na testa.

Desculpe, meu querido, errei na pessoa.

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