fatos surpreendentes e desnecessários


Confort, o cheiro do dia

Posted in eu escrevo por camilak em outubro 25, 2008

Hoje eu queria que o mundo fosse muito óbvio. Só hoje, que estou com preguiça para heterogeneidades. No meu dia óbvio, os dados teriam seis bolinhas de todos os lados, os cubos mágicos seriam monocromáticos. Genius seria heresia.

Todos os homens seriam Charlie Brown e todas as mulheres usariam o vestido da Mônica, dentucinha e sabichona. No meu mundo, óbvio, os restaurantes serviriam purê de batata com carne moída no almoço e x-salada à noite (e só escreveriam x-salada assim, sem querer inventar). Os sanduíches teriam pouca maionese e a mostarda amarelo-esverdeada nunca teria sido imaginada por aquele cretino ganancioso. Só existiria Coca-cola, sem zeros, twists, lemons ou qualquer outro sabor não açucarado e borbulhante. E só de garrafinha de vidro, porque ninguém é de ferro mesmo num dia tão óbvio. Todos os carros seriam fuscas. Todos os nomes seriam Maria e João, ou Maria João e João Maria.

Não seria aniversário de ninguém. Nenhuma morte, nem um espirro em favor da homogeneidade absoluta de saúdes e doenças. Só existiria sorvete de chocolate; Chicabon, de preferência. Não choveria nem faria sol. Seria um nublado claro com temperatura de shopping. Exatos 23 graus Celsius.

Todos os cães seriam vira-latas marronzinhos de desenhar com 10 anos. Os gatos seriam banidos pela paz mundial. Tatuagens, apagadas até amanhã. Brincos, desaparecidos. Alianças esquecidas em cima da pia. Lenços palestinos? Apenas em gavetas entediadas. Marcas de nascença desnaceriam, sardas seriam apagadas com removedor de esmalte – na verdade, foram apagadas no ontem anterior.

Standards de jazz o dia todo como trilha sonora de um mundo perfeitinho de tão chato. No meu dia óbvio demais, não existiriam cartas de amor, arroubos apaixonados, crimes passionais, discussões filosóficas de boteco, grandes expectativas ou suicídios com soda cáustica. Ninguém falaria muito alto. Nem baixo demais. E nunca se espantariam em “caralhos!” de boca cheia.

No entardecer do meu dia muito óbvio, a lua surgiria cheia e amarela. E estudiosos constatariam que naquele dia a água rodou sempre pro mesmo lado abaixo das Três Marias. No mundo todo, óbvio.

Todas as pessoas estariam realmente entretidas e esquecidas em intermináveis partidas de War enquanto a TV, baixinha no fundo da sala, reprisaria os últimos capítulos de todas as novelas. Em ordem crescente de ano de exibição. Nos intervalos, apenas propagandas do aniversário do “carrefurrr”.

No fim do meu dia muito óbvio, as pessoas dormiriam de pijamas listrados e simplesmente não se lembrariam mais das curas tradicionais para o soluço.

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