fatos surpreendentes e desnecessários


Segunda carta a Júlia (ou quando Hamilton dá melancia a passarinhos)

Posted in eu escrevo por camilak em outubro 12, 2008

Júlia, minha mariposa-marzipã, hoje senti um ódio indescritível de você.

Me vi comendo melancia no quintal num momento de calma e, aos poucos, colocando pequenos pedaços da fruta no comedouro dos bem-te-flertei (passarinhos-primos dos bem-te-descobri, como você sabe). Eles vinham, pequena, em cinzas e amarelos, detalhes brancos e pretos e barriga-peito gordinha de passarinho , visitar os pedaços de melancia. Achegavam-se, davam voltinhas de vôo curto, como você sempre faz quando quer se aproximar, e abriam o bico mais que o bico para atacar a melanciecência da melancia em pedacinhos. (Veja bem, Júlia, eu cortei tudo em cubinhos de um centímetro quadrado, para os passarinhos entenderem com sua mente passarinha que era fruta pra eles, não para bichos maiores e menos voadores.)

Mas qual não foi minha surpresa, pequena Júlia, meu guarda-cartas da tarde, quando os passarinhos ignoraram os pedacinhos doces de fruta-água e foram atrás das sementes duras e pretas! Tal como você, menina-estúpida que eu tanto amo, mais penas do que juízo, eles buscam as sementes duras em vez de doçuras e outros acepipes. (Eu sabia o que significava acepipe desde sempre ou inventei a palavra agora? Paro a carta para buscar no dicionário e descubro que acepipe é, na verdade, a palavra-arquétipo, o som estala como o gosto. Coisas miudinhas e gostosas como você, como petiscos e canapés, são a-ce-pi-pes.)

Enfim, voltando, cara Júlia-acepipa, apesar de pensar em você uma vez por hora do dia, mais do que penso na crise da Bolsa e em caquinhos de caleidoscópio, fiquei com raiva. Por que você quer as sementes duras, passarinha, se te dou água doce da cor da primeira bala de goma escolhida?

Ah, deixe-me agora com as palavras mais feias, Júlia incompreensível, que a deixo em verdes e vermelhos de “não te entendo nunca”. Como vingança simbólica pela desfeita inventada – muito fria, é claro, como todas as vinganças – tomarei o último pedaço de melancia da geladeira, farei bolinhas-pérolas e as jogarei aos porcos…

Como acharei porcos em São Paulo num domingo à noite? Ah, minha linda sementinha sem compreensão de metáforas, as vinganças são sempre patéticas. E sanduíches de pernil custam apenas 5 reais. =P

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