fatos surpreendentes e desnecessários


Carta a Júlia (ou a obsessão de apontar lápis como metáfora)

Posted in eu escrevo por camilak em outubro 12, 2008

Apontar lápis é uma arte. Apesar de os apontadores serem feitos para a faquinha mínima protegida pelo miniparalelepípedo oco ­– no caso desta tarde, oco e roxo – ficar para cima, o ideal é virar a minilâmina para baixo. Sim, contrariar a ordem industrial do design de objetos às vezes traz vantagens imensas, minha querida, veja só! Com a faquinha para baixo, as mãos permanecem limpas, sem restos de grafite com a secura empoeirada do preto. E, mesmo considerando que o preto seco vire cinza no encontro com os óleos naturais da derme e ganhe um brilho charmoso, é melhor manter as mãos limpas. Lembre-se, Júlia, mantenha sempre as mãos limpas.

Então, voltando ao início, apontar lápis é uma arte que deve ser executada com a lâmina para baixo, virada diretamente para o lixo. Executando a tarefa desse modo, as casquinhas de madeira com filetes coloridos e as raspas de carvão cairão sempre, sem exceção, mariposamente no lixo, evitando o contato com falanginhas e falangetas em geral. Voilá, mãos limpas!

É claro que você há de me perguntar por que razão você apontaria lápis sem ver a evolução do seu trabalho, já que a faquinha está apontada para baixo. E eu te respondo: arte prevê jogo, moça. Sem ver o que está fazendo, você deve intuir, simplesmente, quanto tempo demora e quantas voltas devem ser dadas para o lápis ficar apontado a contento. Às vezes erra-se, é claro. E perde-se o trabalho de três ou quatro voltas, quiçá mais, dependendo da empolgação no desempenho da tarefa. Mas, por outro lado, saber que acertou exatamente a quantidade de voltas certas para um lápis ficar plenamente apontado (nem mais nem menos, mas perfeitamente apontado) sem ver o seu trabalho é tão excitante quanto atirar facas no alvo redondo, roçando a pele da assistente sem tirar um fio de sangue ou de paetê. Jogo, lápis, pontas afiadas, pequenas apostas internas.

Entenda, minha Júlia: não se pode ter tudo na vida. Mas o encontro de um lápis com seu apontador e a execução perfeita da tarefa é arte, é jogo, é a perfeição de encontros simples – os mais difíceis. E, pensando bem, Júlia, o encaixe perfeito entre o lápis amarelo de agora e o apontador roxo que você tem na mão lembra em tudo a primeira vez que entrei em você, pequena: uma única estocada e o entendimento do encaixe perfeito dentro de dois. Quando cheguei ao seu fundo, sorrimos em hmmm, eu lembro. Hoje sinto na memória, meu amor, que poderia ir deixando pelo caminho minhas cascas, minhas desimportâncias, meu ego, minha pele de madeira, até me ver pequeno e simples dentro de você. Até ser apenas um hmmmm novamente.

Talvez aí, pequena Júlia, você finalmente percebesse a beleza da coisa e me usasse pra escrever suas histórias e contar seus segredos sem tinta.

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