fatos surpreendentes e desnecessários


“De quando uma elefanta carregou seu filho morto nos dentes de marfim e o homem de gravata descarregou uma canção do Lupicínio na moça da farmácia” (ou “Amor, voz de mulherzinha”)

Posted in Uncategorized por camilak em setembro 15, 2008

Venha, me conte histórias. Comova-me com suas vergonhas mais bobas, revele-me segredos incontáveis. Faça-me participar das suas fotografias, das suas sobremesas, da sua morte. Navegue-me pelos seus pânicos, abra a cortina das memórias inventadas, não negue nada. Acima de tudo, não negue nada.

Mude-me para sua casa, pendure-me junto com as chaves. Esqueça-me. Distraia-me com suas amantes imaginárias. Convide-me à sua solidão. Leve-me ao batizado dos seus fantasmas.

Elogie-me para desconhecidos. Apresente-me seus piores parentes. Comente os versos de que você gosta, um por um. Faça-me sentir o arrepio dos espelhos. Não desista, não desista. Deixe-me nervosa, engolindo pensamentos e mastigando sílabas. Faça-me corar e sentir raiva de vermelhos. Perca-me pela vida. Acenda velas para mim na sua encruzilhada favorita. Reze por mim.

Pegue minha tristeza no colo, tenha pena de mim. Afague-me, acarinhe-me, me dê ombro e sofá. Dê chá e goiabinhas piraquê, cigarros e contos de fada. Lamba minhas lágrimas. Empreste-me seus olhos.

Diga que tenho boca de se perder e olhos de se achar. Enfeitice-me. Invada meus pensamentos nas salas de espera; ria de mim, nunca em sustenidos. Me faça acordar no meio do dia para viver poesia de encontros. Me deixe boba e molenga. Deite-me e cale-me. Faça-me sentir seu peso sobre mim. Esmague-me e invada-me. Me faça gozar à força. Apresente-me o vácuo.

Traga-me sorriso e dentes-de-leão, coleções de tatu-bola e chuva de fim do mundo. Esculpa músicas no teto do quarto. Estrague-me, me deixe mimada e cruel. Apague o sol quando eu pedir. Ignore meu desejo de tecer vidas e inventar espantos. Desligue qualquer vontade que não tenha jeito de vida perfeita e cheiro de banho tomado.

Deixe-se cair, se ofereça em sacrifício. Suicide o que for preciso, minta, recuse o que não for profundidade. Enlouqueça calendários e dias santos. Abandone-se.

Venha agora: escreva suas histórias em mim.

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Uma resposta to '“De quando uma elefanta carregou seu filho morto nos dentes de marfim e o homem de gravata descarregou uma canção do Lupicínio na moça da farmácia” (ou “Amor, voz de mulherzinha”)'

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  1. eloise said,

    que entrega, hein, chica!
    achei bonito de doer…
    besitos


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