fatos surpreendentes e desnecessários


nós

Posted in Uncategorized por camilak em setembro 7, 2008

Curiosos se atrasam. Param pra ver passarinho e arabescos nas grades das casas. E conhecem o passarinho por nome e sobrenome: Pitangus sulphuratus, bem-te-descobri. Eles vão por aquela ruinha escondida, depois mudam de caminho pra ver a avenida larga. Lêem capas de revistas, manchetes de jornais e queriam ter uma banca. Gostam de coisas pequenas, miudezas. E olham pro céu mais do que pra saber se vai chover: procuram deuses, sóis e nuvens com forma de bicho. Constelações de coisas muito os interessam.

Curiosos se permitem. Histórias de vó e novos sabores são presentes da vida. Conversas de boteco e cheiro de livro são a graça de existir. Desconhecimentos os encantam. Eles provam o sorvete azul, gostam de sentir na pele as tramas do tecido, suspiram sinfonias em feira-livre. Os curiosos soletram nomes e se encantam com sons. Pingo na lata, oco de bambu, assobio de vento, voz rouca, tlililim que vem não se sabe de onde. Não se negam nada: ouvem, cheiram, tocam, sentem.

Curiosos se entediam. Não são felizes parados, nasceram pra viramundos. E quando a vida obriga pausas, fazem amizade na fila, comentam estranhezas no elevador, reparam nas pessoas no metrô – listras e modas, leituras e formatos de nariz. Os curiosos criam teorias e riem de si mesmos. Eles passam a vida buscando varais coloridos, buquês perfeitos, silêncios que lembrem o minuto antes da chuva.

Curiosos se distraem. Olham papéis de bala como se fossem contratos importantes. Perdem tempo, ganham histórias. Procuram sentidos, relações, sincronias. Não se cansam. Passam o café-da-manhã lendo a caixa de sucrilhos, o almoço brincando com a comida e o jantar conhecendo o Amor.

Curiosos se espantam, se apaixonam, se perdem, se acham, se jogam…

Os curiosos se reconhecem.

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2 Respostas to 'nós'

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  1. Rosa said,

    Camila, a passagem por aqui é extremamente necessária para que eu sinta que a minha necessidade de ser grata se concretizar.
    Sou sempre grata as coisas que me agradam e recebi hoje da Carla esse seu texto que para mim foi um daqueles presentes inusitados, do tipo um sorriso lindo e gratuito, esboçando alguns dentilhos de leite de gentinha pequena, passando pela rua, que nem se quer sabe seu nome.
    Doce, sútil, ineligente e real sua formação de palavras. E talvez o encantamento tenha sido ainda maior por uma descarada identificação pessoal.
    Parabéns pelo resultado feliz e pelo talento.

    bjs

    Rosa

  2. camilak said,

    você é generosa demais da conta, moça. corei. =)


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