fatos surpreendentes e desnecessários


Só porque eu quis guardar esse poema de algum jeito…

Posted in eu leio por camilak em janeiro 9, 2011

Possibilities

I prefer the cinema.
I prefer cats.
I prefer oak-trees by the Warta.
I prefer Dickens to Dostoyevsky.
I prefer myself liking humans
to myself loving humanity.
I prefer having a thread with a needle close at hand.
I prefer green.
I prefer not claiming that
the intellect should be blamed for everything.
I pefer exceptions.
I prefer leaving before.
I prefer talking to doctors about something else.
I prefer old marked illustrations.
I prefer being laughable because of writing poems
to being laughable because of not writing them.
I prefer odd anniversaries in love life,
to be celebrated every day.
I prefer moralists
who do not promise me anything.
I prefer calculated goodness to goodness that is too gullible.
I prefer the earth in civvy street.
I prefer conquered countries to the conquering ones.
I prefer having my objections.
I prefer the hell of chaos to the hell of order.
I prefer Grimm tales to the first pages of newspapers.
I prefer leaves without flowers to flowers without leaves.
I prefer dogs with their tails unclipped.
I prefer fair eyes since mine are dark.
I prefer drawers.
I prefer many things I have not listed above
to many others unlisted here.
I prefer noughts that are loose
to those queueing for a digit.
I prefer insect time to stellar time.
I prefer touching wood.
I prefer not asking how much longer and when.
I prefer considering even such a possibility
that existence has its reasons.

Wislawa Szymborska

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Texto para a amiga

Posted in eu escrevo,eu vivo por camilak em maio 28, 2009

frootloops

A vida tem coisas boas, veja só: tem chocolate e doritos, fanta e froot loops. Tem amigos que se preocupam e que nos querem assim, de qualquer jeito, simplesmente viva. Tem amor e preocupação, daquelas de olho vermelho e noite de insônia que nos mostram o sentido da palavra família. Tem declarações mínimas de saudade e sorriso aberto de reconhecimento.

A vida tem fatos curiosos e gente curiosa. Tem jus e deyves, rosas e flávias, tem cláudios e até uma pessoa sem nome chamada mãe. Tem corrente do bem, tem medo e doçura, tem defeitos que desaparecem só porque a gente sabe que todo mundo tem. Tem poesia baldia, que nasce na beirinha da calçada. Tem sonhos que se realizam e outros que inventamos só porque é bom demais inventar sonhos.

Tem o minuto antes de dormir e o abrir dos olhos. Tem sol e chuva e sorte e azar. E tem o dia seguinte, pra ser o que a gente quiser. A

vida tem mais coisas do que a gente consegue carregar. E cabe tanto! A vida tem a certeza de começar de novo, de dar tudo certo, de acreditar. Tem aqueles momentos em que somos a pessoa mais bonita do mundo, em que tudo parece combinar e a gente brilha sorrindo na frente do espelho. Tem dias de pés trocados. De pé frio. De pisar de meia no molhado. Tem até preocupações demais, pra gente rir no futuro.

A vida tem coisas tão fofas quanto crianças e filhotes. E tem coisas que brilham e acendem e tilintam. Tem cheiro de pão quentinho. E tem cheiro de biscoito, pra ser melhor ainda. Tem presente de aniversário, de casa nova, de natal, de eu te amo. Tem telefonemas inesperados e aqueles que a gente espera com o coração na boca.

A vida tem tanta coisa que leva uma vida inteira pra gente ver, cheirar, sentir…

Bem-vinda à vida, amiga.

sopa

Posted in eu escrevo por camilak em maio 20, 2009

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Tem nas mãos as oportunidades de uma vida. De todas as vidas. Das que quiser. E está parada desenhando constelações num prato de sopa.

Tem um cuidado extremo, desviando o fumegante, apenas roçando a película do caldo, nunca afundando demais a colher. Nada poderá impedi-la antes do cinturão de Órion ter se formado com pedaços de frango e grãos inchados de arroz.

Tem uma intensidade fora de moda, olhos que se perdem, pernas que desobedecem. Não sabe como falar. Tudo vira algodão na boca, mas sem doce: algodão manta acrílica. Arrepia e trava a mandíbula. Embola e não sai, gruda na língua.

Tem se concentrado na distração, menos por essência que por sobrevivência. Caso não colocasse uma ficha pautada após a outra, um assunto após o outro, um medo de intervalo e mais insignificâncias importantes no próximo bloco, pensaria apenas no que poderia ter sido. E o ter sido faz mais mal do que nada-nunca-ser-nunca-mais. Porque tem história e erros; e tem sempre “o que eu deveria ter feito” e “o que eu deveria ter dito”, que são primos-irmãos do “não devia ter agido assim” e todas as variações de uma mesma história recontada em 24 culpas por segundo.

E tem, fora as distrações, uma expectativa que a consome, uma esperança, um cuidado, um medo: identificar precisamente sonhos boreais, desejos austrais e certezas zodiacais. Mesmo que precise das abobrinhas.

Matando formigas (ou “mulheres, mulheres”)

Posted in eu escrevo,eu vivo por camilak em janeiro 12, 2009

formiga

Talvez elas sempre tenham estado aí. Talvez elas morem neste apartamento há mais tempo do que você. Quem sabe elas não têm a própria epopéia de conquista de território, quando um clã bombardeou o outro para anexar territórios. Pode até ser que no War das formigas o chãozinho mínimo que apóia a esquadria da janela seja Dudinka. O terceiro azulejo de baixo para cima, na quarta fileira a partir da porta da área de serviço, à direita, vista de frente de quem chega, seja Omsk. E aquele pedaço de pizza que você deixou na caixa em cima da mesa seja a Terra Prometida. A embalagem de Danoninho vazia que ficou na pia por pura preguiça com certeza é Marte.

Na história das formigas, sua casa é Macondo. Gerações se sucederam no período de seis meses, toda uma história de civilização, com avanços tecnológicos e paraditas filosóficas realmente importantes. Deve haver pelo menos uma coleção Pensadores e as obras completas de Freud. E uma Britney causando. E uma Amy que mora na sua caixa de remédios. E uma Lady Di morta por um sapato descuidado. E mitologias próprias e guerras na televisão. Talvez até alguma formiga idiota vestida de dinossauro roxo para entreter as larvas.

Mas não importa quanto tempo elas tenham existido antes de você olhar para elas. Importa o reconhecimento. Um dia você simplesmente percebe que elas estão lá. E isso passa a incomodar.

Mulheres são assim. Um dia a formiga do quilo extra incomoda. Aquela pinta um pouco mais saltada. O cabelo. O emprego. E até, pasmem, o Amor (no caso, a falta dele). Mas mulheres, práticas que somos, descobrimos logo uma saída para resolver o problema. Tudo começa com uma visita ao Google. Pronto, sabemos tudo sobre como trucidar formigas, eliminar maus odores, domar cabelos que não avoam, mudar de emprego, encontrar o cara perfeito.

Munidas da informação, vamos às compras. Compramos o sutiã certo, o perfume certo, o creme certo, o remédio certo, o veneno certo, o currículo certo, o livro de auto-ajuda certo. E lemos a embalagem.

Aí é simples. Solução em uma das mãos, certeza em punhos, passamos à temida fase dois. E começamos o tormento. Colocado o veneno, vamos de minuto em minuto ao pote para saber se as formigas já carregaram tudo para seus ninhos macondianos e estão lá, à beira da morte, amaldiçoando os budistas (que as fizeram relaxar) e a Bayer. Passamos o creme e vamos de 2 em 2 minutos ao espelho para ver se os cabelos estão realmente domados. Por mais que esteja escrito na embalagem que é um tratamento que começa a surtir efeito em uma semana. Encontramos a pessoa certa, certa certa ou certa porque foi ela quem reparou no sutiã novo e na sua postura mais autoconfiante, e passamos a esperar as ligações. E conferimos e reconferimos. E ficamos ansiosas. E comemos demais ou não comemos. E pensamos só nisso. E comemoramos cada grão de veneno carregado, cada SMS, cada resposta de “estamos analisando” seu perfil, cada grama perdido, cada fio no lugar.

Mas não basta. Porque uma hora, não importa quão metódicas as formigas sejam, elas têm de fazer outras coisas em suas vidas de formigas (como chamar a Cruz Vermelha para os primeiros casos de uma rara doença que veio de Marte ou viajar no final do ano) e elas simplesmente param de pegar o veneno. E os SMSs falham. E as respostas do currículo não viram entrevistas tão cedo. E o peso estabiliza (ou aumenta 100g). E o creme pára de fazer efeito porque o cabelo viciou na coisa.

E aí suas expectativas aumentam e você se torna obsessiva. E olha emails e espelho e grânulos de veneno até contá-los. E você começa a achar que fez algo errado, que fez besteira de novo. E se culpa.

Então, depois de muito sofrimento (seu e das formigas), elas somem. O problema some. Você troca de emprego, fica mais magra, encontra a pessoa certa ou meio certa, ajeita o cabelo, mata as formigas.

Até o novo incômodo. Até o novo encontro. Até o novo problema recentemente descoberto (ou inventado). Até as novas formigas.

voltando (ou recortes, história de um amor platônico-poético)

Posted in Uncategorized por camilak em janeiro 6, 2009

hands

São as mãos dele que a fazem prender a respiração. Mãos não particularmente bonitas, mas que se movem de um jeito líquido. Mãos que no ar mimetizam vertigem de surdos, dedilham sonhos de tubarão, bordam o delírio de avencas em abandono. Mãos que falam como quem tece tapetes orientais de mil nós ou inventa uma dança secreta diante do espelho. Mãos que você pode olhar por uma vida sem cansar, como filhotes de bichos.

As mãos dele paradas são pássaros ofegantes. Por um minuto pousam, exaustas, a respiração curta do dorso. Os dedos se alongam e se fecham em punho. Uma, duas, três vezes. Por fim soltam-se como mortas em cima da mesa. Ela estremece de beleza para, um segundo depois, vê-las voar novamente. E as mãos dele sintetizam, com sua dança sem sentido próprio, a História Mundial dos aviões de papel, das pipas, das sacolinhas de plástico suicidas.

Luísa só fez um pedido de Ano Novo. Para um dia, por alguns minutos, sentir cada nó, cada osso, cada unha, cada nervura, cada poro da mão de Maurício com a palma da sua língua.

um texto que estava parado aqui e resolveu se autopublicar – febre

Posted in eu escrevo por camilak em dezembro 10, 2008

Reza a lenda, na voz de cantilena monótona que as lendas muito velhas têm, que Isabela foi tomada por uma febre mais quente do que pés debaixo de três acolchoados de pena de ganso. Pensava em seus amores, homens e mulheres, e exalava calor de entrecoxas e sub-seios. Tinha pensamentos pegajosos, a moça, muito úmidos e gosmentos. Sem meias-palavras, queria foder.

Durante o dia, fez os recortes mentais de corpos imaginados, para lembrar-se dos detalhes mais assombrosos: a linha da cintura daquele homem, quadradinha como deve ser; a barriga sem pêlos do outro, que nunca foi nada mais do que miragem numa tarde de “assistir ao futebol dos meninos na faculdade”; o modelo negro lindo que ela recortou da revista; os olhos safados daquele outro que roubou o beijo e o desejo num bar estranho; os seios fartos da primeira menina que beijou; o cheiro daquela noite de encontros, o suor de uma tarde aos pingos, o desespero com que se entregou ao seu amor definitivo, entre delírio e promessas de foda perfeita; todas as noites, todas as histórias, todas nuances, tudo. Ao fim, fez uma procissão de amantes imaginados em quês de suruba e esquentou mais e mais. Podia causar queimaduras de terceiro grau, a menina.  Envergonhar o sol. Dizer sim ao gozo mais distraído, quase sem toque.

Então, não sabendo o que fazer com os calaquentes lhe subiam espinha acima, sucumbiu. Foi ao banheiro e resolveu tudo ali mesmo. Sozinha, Isabela, olhando pro espelho e se imaginando. Sozinha lembrando. Sozinha com a luz fria. Sozinha apoiada na pia.  Sozinha em vertigem e combustão. Saiu de bochechas rosadas e olhão brilhante.

Voltou tranqüila ao trabalho no escritório de contabilidade.

Lorena e o convívio entre bochechas

Posted in eu escrevo por camilak em dezembro 6, 2008

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Lorena não gosta de dar beijos no ar. Dependendo da situação, ela decide entre beijar e ser beijada. A cada cumprimento, uma escolha. Não se pode ter tudo, disseram um dia numa apresentação em ppt. Lorena acreditou. Mas a moça, direito dela, também não quer simplesmente abdicar dos beijos, jogá-los ao ar, dar beijos de comer aos passarinhos conceituais da branca de neve.

Então, diante da impossibilidade física de duas pessoas efetivamente beijarem as bochechas uma da outra simultaneamente, ela desapareceu com a instituição “mmmuá, querida”. Como vocês devem saber, leitores inteligentes que são, apenas pessoas cubistas têm olhos e boca e orelhas e narizes no mesmo plano. E pessoas cubistas não se beijam, está escrito no Manifesto Cubista de 1908 – artigo sobre beijos e outros ósculos.

Então, pensando friamente no ridículo dos choques de rosto com estalados no ar (pior, perto da orelha, pra dar zunido), Lorena decidiu pelo simples: para algumas pessoas, beijo. Para outras, bochecha.

O critério, obviamente, não é tão aleatório assim. Lorena tem método. Por exemplo: para as pessoas de que gosta, dá a bochecha. Sentir que o outro gosta dela tanto quanto o carinho que ela tem é recompensador. E já ganhou beijos perfeitos de pessoas a quem se ama sem mãos ou sexo, puro amor de bochechas.

Lorena também se frustra, é claro. É humana, como sabemos, e todo ser humano passa pelo sofrimento de saber que sempre há alguém mais rico e mais bonito na esquina. E, pior, sempre tem alguém que beija bem. E tem quem decepciona. Um beijo-aperto-de-mão-mole.

Lorena beija também, pra mostrar que se importa. O prazer é menor, mas ela dá a outra face. A face paradoxal dos lábios. É cristão, deve ser bom.

Hoje, na hora do almoço, contudo, tivemos um upgrade na história mundial das bochechadas: Lorena se atrapalhou toda no vaivém de vira-vai e deu um selinho na manicure. Selinho estalado.

Lorena sorriu. A manicure, não.

comecei hoje…

Posted in eu leio por camilak em dezembro 1, 2008

dentes-brancos

meus pensamentos ganharam um pogobol de natal…

Posted in eu escrevo por camilak em novembro 25, 2008

Nem venha me dizer, Nana, que eu tenho pensamentos estranhos. Todos nós temos. O que acontece é que eu fico com eles um tempo a mais. É… Enquanto as outras pessoas simplesmente têm os pensamentos e os deixam passar e seguir sua vidinha de pensamentos, sem parar no sinal nem nada, eu, apegado que sou, me agarro ao pensamento. Pego ele pelas pernas, faço-o refém e fico cutucando pra ver se sai mais alguma coisa dali. Às vezes sai.

Hoje, por exemplo: eu passei na frente de um pet shop. Você sabe que pet shops, todos eles, mesmo os mais fuleiros, têm cheiro de cachorro bem lavado. Deve existir um Bom Ar sabor Cachorro Bem Limpinho que eles só vendem para pet shops, tenho certeza. Aquele não é um cheiro natural. É igualzinho em todos, todos, não importa o número de gatos e cachorros que circularam, as raças e seus tamanhos, quantos banhos deram naquele dia. Só pode ser Bom Ar sabor Pet Shop.

Aí, como um pensamento leva a outro, apresenta seus primos e amiguinhos, acabei me lembrando da Lidiane, que estudava comigo no Santa Apopéia. Quanto tempo, Jesus! O fato é que Lidiane, quando molhava, tinha cheiro de pet shop; cheiro de cachorro muito do bem lavado. É claro que o cheiro não era de todo mau, era cheiro de limpeza, aquele que minha vó volta e meia dizia que era bom. Mas era um cheiro de limpeza de poodle, sabe?

A pobre Lidiane era um Gremlin sexual, tadinha. Seca, uma menina que não fazia feio, boas batatas da perna, coxas e peitos. A bunda não era um primor, mas dava bem pro gasto. Segundo um amigo, que realmente pegou Lidiane no segundo colegial, ela tinha aquelas espinhinhas na bunda, pequenos pontos vermelhos que tiram a atenção. Mas, nada grave, ele achou até engraçadinho. Nunca me esqueci disso.

No entanto, Lidiane molhada era como exposição de cães, concurso de agility, feira de filhotes. Aquele cheiro só encontrado em cachorros de banho recém-tomado e pet shops de bairro (mentira, nos de shopping também).

Com isso, Lidiane não era chamada pra eventos em parques aquáticos, churrascos em casa com piscina (nem que fosse uma regan) e muito menos pra tomar banho em casa. Eu comprovei isso da pior maneira. Uma vez ela tomou chuva e, pra se esquentar, resolveu tomar uma ducha em casa (tá bom, tá bom, eu ofereci). Minha mãe, como resultado, teve de jogar a toalha de banho fora. Nem pra pano de limpeza servia mais. “Já imaginou a casa inteira com cheiro de pinscher ensaboado?”. Pra falar bem a verdade, por apego absoluto à toalha de mais de vinte anos, laranja e marrom com flores que hoje devem estar na moda, dona Zuleide ainda tentou dá-la para o Totó. Mas o bicho arreganhou uns dentes dessa idade, estranhando o cheiro de cachorro invasor. Não teve jeito, foi pro lixo.

Enfim, não sei por que estou contando tudo isso a você hoje, Nana. Acho que aqueles pensamentos que eu deixei passear me levaram muito longe. Eu tinha uma teoria, mas ela foi parar numa gaveta da sala do diretor do Santa Apopéia e ficou lá, de relíquia.

Talvez eu tenha contado tudo isso só pra mostrar que nem sempre os caminhos dos pensamentos fazem sentido. Às vezes eles vão de pogobol de um lugar pro outro. Vai saber. Mas agora pelo menos entendo por que cheiro de pet shop me faz lembrar espinhas na bunda…

Aline, Barba Azul e Atlas (ou como misturar pessoas reais, mitológicas e inventadas no mesmo cômodo)

Posted in eu escrevo por camilak em novembro 18, 2008

Eu tava pensando, Rose, que todo mundo tem um andar de cima. Não, não é bem um andar de cima… é outra coisa. Deixe-me tentar explicar melhor: talvez seja mais uma mistura de sótão com mezzanino. Depende da pessoa, é um ou outro. Ou mais ainda. É um cômodo sempre trancado no castelo do Barba Azul. O Grande Cômodo Misterioso.

Você vê a pessoa e acha que ela é só aquilo, o térreo. Dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Tem gente que ainda tem uns adicionais, como um jardim ou um quintal. Ou uma jacuzzi. Definitivamente, tem gente que vem com jacuzzi de fábrica. Mas, se tivéssemos olhos pra ver essas pessoas de verdade, olhos com visão noturna ou arquitetamente treinados, perceberíamos que aquela viga foi feita pra suportar mais peso, que ali tem um porão ou uma câmara secreta. Nem que seja um quartinho de despejo, tem mais coisa.

É um espaço largo onde se guardam medos e inseguranças , bondades gratuitas e força de Atlas (o deus, não o livro), amores que não deram certo e fantasmas. Coleções de fantasmas, diga-se de passagem, uma verdadeira fantasmoteca.

Mas aí você vai andando pela rua e encontra, digamos, a Aline, uma moça simpatissíssima que trabalha como assistente da pediatra do seu filho, tem vinte e poucos anos e faz quinze dias comprou um lenço palestino porque achou chique.

A Aline, olhando de fora, não passa de uma quitinete. Você a conhece superficialmente e imagina que ela não tem mais valor venal do que um conjugado na ZL. No entanto, a Aline já sonhou em ser um gato, siamês, pra ser exata, já quase morreu de raiva da Regina Duarte, namorou o Alfredo, mas nem quis mais nada com ele, porque ele falava os esses esquisitos demais e comia sem modos. A Aline quer mudar o mundo nos dias pares, morre de preguiça nos ímpares e está lendo o Caçador de Pipas já faz um tempo, bem devagarinho. Ela acorda cedo todo dia, pega o ônibus com um colega e os dois não falam nada (porque ela acha sem educação ficar falando da vida alheia no ônibus).

A Aline ouve todas as queixas de sua mãe em silêncio, mastiga de boca fechada e quer se livrar de uma pinta-verruga perto do nariz que a incomoda muito. Ela já despertou paixões e foi querida, já teve medos e acordou com a boca travada de pesadelo. Tem carteira de doadora de órgãos e nunca anda com o guarda-chuva embaixo de marquises pra não incomodar ninguém.

No quarto escondido de Aline moram sonhos em ré menor, boa vontade, uma árvore genealógica de mais de mil anos de mulheres que sabem parir bem e alguns ppts de anjinhos, porque são lindos. Aline ajuda a vó que está ficando caduca a cozinhar e limpar a casa. E, pacientemente, ouve repetidamente as mesmas histórias dia após dia. Ela não se importa, faz bem pra velhinha. Ela não confessa, mas até gosta.

É isso, Rose, não estou inventando moda. No fundo, eu sei, você vai me entender. A gente é que precisa construir um puxadinho no nosso olhar. E o que a Aline tem a ver com isso?

Nada, a Aline tá sossegada. Você não precisa se preocupar com ela. O conjugado da Aline é triplex e tem vista pro mar.

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